Sinopse
Neste conto da bem-sucedida e adorada série Hopeless, o leitor conhecerá melhor dois personagens secundários de "Um caso perdido". Daniel está no breu do armário de vassouras da escola – o perfeito esconderijo para quem quer fugir do mundo real –, quando uma garota literalmente cai em cima dele. Às cegas, os dois vivem um curto romance, mesmo sem acreditar muito no amor. No fim a garota foge, como se realmente fosse a Cinderela e tivesse uma carruagem prestes a virar abóbora. Um ano depois, Daniel e sua princesa se reencontram, e percebem que é possível nutrir um amor de conto de fadas por alguém completamente real. Juntos, os dois irão perceber que fora do faz de conta, ficar juntos é bem mais difícil e os problemas de um casal são muito reais.
Prólogo
— Você fez uma tatuagem?
É a terceira vez que faço a mesma pergunta para Holder,
mas ainda não consigo acreditar. Ele não é de fazer essas coisas.
Especialmente se não fui eu que o incentivei.
— Caramba, Daniel — resmunga ele, do outro lado da linha.
— Para com isso. E também para de me perguntar o motivo.
— É que é estranho tatuar essa palavra. Hopeless. É algo
bem depressivo. Mas estou impressionado mesmo assim.
— Tenho que ir. Ligo no final da semana.
Suspiro ao telefone.
— Isso é um saco, cara. Depois que você foi embora, a única
coisa boa no colégio é o quinto tempo.
— O que tem no quinto tempo? — pergunta Holder.
— Nada. Eles se esqueceram de encaixar uma aula para
mim, então passo uma hora escondido no armário dos zeladores
todos os dias.
Holder ri. Percebo que é a primeira vez que escuto a risada
dele desde que Les morreu, dois meses atrás. Talvez se mudar
para Austin faça bem a ele.
O sinal toca. Seguro o telefone com o ombro, dobro o casaco
e o jogo no chão do armário dos zeladores. Apago a luz.
— Depois nos falamos. Hora do cochilo.
— Até mais — diz Holder.
Encerro a ligação, programo o alarme para tocar em cinquenta
minutos e coloco o telefone no balcão. Eu me abaixo e
me deito no chão. Fecho os olhos e penso no quanto esse ano
está sendo péssimo. Odeio o fato de Holder estar passar por
essas coisas sem que eu possa fazer nada para ajudar. Nunca tive
que lidar com a morte de alguma pessoa próxima, muito menos
de alguém tão próximo quanto uma de minhas irmãs. Ainda por
cima uma irmã gêmea.
Nem me arrisco a dar conselhos, mas acho que ele gosta disso.
Acho que precisa apenas que eu continue me comportando
normalmente, pois só Deus sabe o quanto todo mundo desse
maldito colégio fica sem graça perto dele. Se as pessoas daqui
não fossem tão idiotas, talvez ele não tivesse se mudado e as
aulas não seriam tão ruins.
Mas são um saco. Todo mundo nesse colégio é um saco e eu
odeio todos. Odeio todo mundo, exceto Holder, e é por causa
deles que ele não está mais aqui.
Estico as pernas, cruzo os tornozelos e dobro o braço por
cima dos olhos. Pelo menos tenho o quinto tempo.
O quinto tempo é legal.
***
Meus olhos se abrem bruscamente e solto um gemido ao sentir
algo cair em cima de mim. Escuto o barulho da porta se
fechando.
Que merda é essa?
Ponho as mãos em cima do que quer que tenha acabado de
cair em mim e começo a rolar a coisa para o lado, mas minha
mão encosta numa cabeça com cabelo macio.
É uma pessoa?
Uma garota?
Uma garota acabou de cair em cima de mim. No armário
dos zeladores. E ela está chorando.
— Quem diabos é você? — Faço a pergunta com cuidado.
Eu me levanto e tento rolá-la para o outro lado, mas acabamos
batendo nossas cabeças.
— Merda.
Caio para trás no meu travesseiro improvisado e ponho a
mão na testa.
— Desculpe — murmuro.
Nenhum de nós se mexe dessa vez. Consigo escutá-la fungando,
se segurando para não chorar. Não consigo ver nada na
minha frente porque a luz ainda está apagada, mas de repente
percebo que não estou mais me importando com o fato de ela
ainda estar em cima de mim porque seu cheiro é maravilhoso.
— Acho que estou perdida — diz ela. — Pensei que estava
entrando no banheiro.
Balanço a cabeça, apesar de saber que ela não consegue enxergar
o que estou fazendo.
— Aqui não é um banheiro. Mas por que está chorando?
Você se machucou quando caiu?
Sinto o corpo dela inteiro suspirar em cima de mim e, apesar
de eu não fazer ideia de quem ela é nem de sua aparência,
dá para sentir sua tristeza, o que também me deixa um pouco
triste. Não sei direito como acontece, mas meus braços a cercam
e ela encosta a bochecha no meu peito. Em apenas cinco
segundos passamos de uma situação extremamente constrangedora
para uma agradável, como se fizéssemos isso o tempo
inteiro.
É estranho, normal, sensual, triste e diferente, e não quero
soltá-la. Tem algo de empolgante nisso, como se estivéssemos
numa espécie de conto de fadas. Como se ela fosse a Sininho e
eu, o Peter Pan.
Não, espera aí. Não quero ser o Peter Pan.
Talvez ela possa ser a Cinderela e eu, o Príncipe Encantado.
É, gosto mais dessa opção. A Cinderela é gostosa mesmo
pobre, suada e se matando de trabalhar na frente do fogão. Ela
também fica bem bonita com o vestido de baile. Além disso, nos
conhecemos num armário cheio de vassouras. Bem adequado.
Sinto que ela está levando a mão até o rosto, muito provavelmente
para enxugar uma lágrima.
— Odeio eles — afirma, baixinho.
— Quem?
— Todo mundo. Odeio todo mundo.
Fecho os olhos, ergo a mão e a passo pelo cabelo dela, fazendo
o que posso para consolá-la. Finalmente alguém que entende
isso. Não sei por que ela odeia todo mundo, mas tenho a impressão
de que seu motivo é válido.
— Também odeio todo mundo, Cinderela.
Ela ri baixinho, talvez por não ter entendido por que a chamei
de Cinderela. Pelo menos ela riu e não está mais chorando. A
risada dela é contagiante, e tento pensar em alguma coisa que a
faça rir mais uma vez. Estou tentando pensar em algo engraçado
para dizer quando ela afasta a cabeça do meu peito e eu a sinto
se aproximar mais de mim. Antes que eu possa perceber, sinto
lábios tocarem os meus e fico sem saber se devo empurrá-la ou
rolar para cima dela. Começo a erguer as mãos na direção de seu
rosto, mas ela se afasta com a mesma rapidez com que me beijou.
— Desculpe — diz ela. — Tenho que ir. — Ela põe as palmas
das mãos no chão e começa a se levantar, mas agarro o rosto
dela e a puxo de volta para perto de mim.
— Não — digo.
Puxo sua boca para perto da minha e a beijo. Mantenho
nossos lábios pressionados com firmeza enquanto aproximo
o corpo dela e coloco sua cabeça deitada no meu casaco. Seu
hálito tem cheiro de balas de frutas, o que me dá vontade de
continuar beijando-a até conseguir identificar todos os sabores.
A mão dela encosta no meu braço e o aperta com força no
instante em que minha língua entra na sua boca. Sinto gosto de
morango na ponta da língua dela.
Ela mantém a mão no meu braço, movendo-a de vez em
quando para a minha nuca, e logo em seguida voltando para o
braço. Continuo com a mão em sua cintura e não toco nenhuma
outra parte de seu corpo. A única coisa que exploramos é a boca
um do outro. Nós nos beijamos e não há som algum fora o do
nosso beijo. Ficamos nos beijando até o alarme do meu telefone
tocar. Apesar do barulho, não interrompemos o beijo. Nem
hesitamos. Continuamos nos beijando por mais um minuto inteiro,
até o sinal soar no corredor lá fora e os alunos começarem
repentinamente a bater as portas de seus armários e a conversar,
e todo o nosso momento juntos é roubado por todos os fatores
externos e inconvenientes do colégio.
Paro de movimentar meus lábios, mas os mantenho encostados
nos dela, e depois me afasto devagar.
— Tenho que ir para a aula — sussurra ela.
Balanço a cabeça, apesar de ela não conseguir me enxergar.
— Eu também — respondo.
Ela começa a sair de debaixo de mim. Após rolar para ficar
de costas, sinto-a se aproximar. Sua boca encontra mais uma vez
a minha bem depressa e, em seguida, ela se afasta e se levanta.
No instante em que ela abre a porta, a luz do corredor inunda o
armário e eu aperto os olhos, jogando o braço por cima do rosto.
Escuto a porta se fechar quando ela sai e, depois de me ajustar
à claridade, a luz desaparece mais uma vez.
Suspiro pesadamente. Continuo no chão até me recuperar
da forma como meu corpo reagiu a ela. Não sei quem diabos ela
é nem por que veio parar aqui, mas espero mesmo que ela volte.
Preciso de muito mais disso.
***
Ela não apareceu no dia seguinte. Nem no dia depois desse. Na
verdade, hoje faz uma semana que ela literalmente caiu nos meus braços,
e eu me convenci de que talvez aquilo tudo não
tenha passado de um sonho. Fiquei vendo filmes de zumbis com
Bolota durante boa parte da noite anterior, mas, mesmo tendo
dormido apenas duas horas, sei que não teria sido capaz de imaginar
aquilo. Minha imaginação não é tão divertida assim.
Quer ela volte ou não, continuo sem ter aula no quinto tempo
e, enquanto ninguém reclamar, vou continuar me escondendo
aqui. Na noite passada acabei dormindo muito, então não
estou cansado. No instante em que pego o celular para enviar
uma mensagem a Holder, a porta do armário começa a se abrir.
Escuto-a sussurrar:
— Você está aí, menino?
Meu coração começa a bater acelerado no mesmo instante, e
não tenho certeza se é porque ela voltou ou porque a luz está acesa,
mas não sei se quero ver o rosto dela quando a porta se abrir.
— Estou aqui — digo.
A porta mal se abriu. Ela põe a mão para dentro do armário
e tateia a parede até encontrar o interruptor e o desligar. A porta
se abre, ela entra no armário e fecha a porta depressa.
— Posso me esconder aqui com você? — pergunta ela.
Sua voz está um pouco diferente da última vez. Parece mais
feliz.
— Hoje você não está chorando — digo.
Sinto-a se aproximar de mim. Ela roça na minha perna e
percebe que estou sentado no balcão, então tateia a área ao meu
redor até encontrar um lugar vazio. Ela se ergue e se senta ao
meu lado.
— Hoje não estou triste — diz ela, dessa vez com a voz bem
mais perto de mim.
— Que bom. — Ficamos em silêncio por vários segundos,
mas acaba sendo legal.
Não sei por que ela voltou nem por que demorou uma semana,
mas fico feliz por ela estar aqui.
— Por que você estava aqui dentro semana passada? — pergunta
ela. — E por que está aqui agora?
— Estou com um buraco no horário. Não encaixaram nenhuma
aula para mim no quinto tempo, então fico escondido,
na esperança de que ninguém da administração perceba.
Ela ri.
— Que esperto.
— Pois é.
Ficamos em silêncio de novo por cerca de um minuto. Nossas
mãos estão segurando a beirada do balcão e, toda vez que
ela balança as pernas, seus dedos encostam de leve nos meus.
Depois de um tempo, eu acabo pegando a mão dela e a colocando
no meu colo. Parece estranho agarrar a mão dela desse jeito,
mas na semana passada nós dois passamos uns quinze minutos
nos agarrando, então, na verdade, segurar a mão dela é recuar
um passo.
Ela entrelaça os dedos nos meus e nossas palmas se encontram.
Em seguida, dobro os dedos por cima dos dela.
— Isso é gostoso — diz ela. — Nunca tinha segurado a mão
de ninguém.
Fico paralisado.
Quantos anos essa garota tem, afinal?
— Você não está no ensino fundamental, está?
Ela ri.
— Meu Deus, não. É só que nunca segurei a mão de ninguém.
Os garotos com quem fiquei parecem se esquecer de fazer
isso. Mas é legal. Gostei.
— Pois é — concordo. — É legal.
— Espera — diz ela. — Você não está no ensino fundamental,
está?
— Não. Ainda não — digo.
Ela balança a perna para o lado e me dá um chute, em seguida
nós dois rimos. — Isso é meio estranho, não é? — pergunta ela.
— Seja mais específica. Muitas coisas podem ser consideradas
estranhas, então não sei do que está falando.
Percebo que ela dá de ombros.
— Não sei. Isso aqui. A gente. A gente se beijar, conversar
e ficar de mãos dadas sem nem saber como somos fisicamente.
— Eu sou muito gato — afirmo.
Ela ri.
— Estou falando sério. Se me visse agora, você ficaria de
joelhos, imploraria para ser minha namorada e ficaria me exibindo
pelo colégio inteiro.
— Muito improvável — diz ela. — Eu não namoro ninguém.
Namorar é uma coisa superestimada.
— Se você não fica de mãos dadas com ninguém nem namora,
o que é que você faz?
Ela suspira.
— Praticamente todo o resto. Tenho a maior fama, sabe. Na
verdade, é possível que a gente já tenha até transado, só não
percebemos isso ainda.
— Impossível. Você se lembraria de mim.
Ela dá outra risada e, por mais que eu esteja me divertindo
com ela, seu riso me dá vontade de arrastá-la até o chão junto
comigo e beijá-la sem parar.
— Você é mesmo um gato? — pergunta ela, ceticamente.
— Muito gato.
— Deixa eu adivinhar. Cabelo escuro, olhos castanhos, abdô-
men superdefinido, dentes brancos, estilo Abercrombie & Fitch.
— Quase — digo. — Cabelo castanho-claro, acertou os
olhos, o abdômen e os dentes, mas prefiro o estilo American
Eagle Outfitters.
— Impressionante — comenta ela.
— Isso é meio estranho, não é? — pergunta ela.
— Seja mais específica. Muitas coisas podem ser consideradas
estranhas, então não sei do que está falando.
Percebo que ela dá de ombros.
— Não sei. Isso aqui. A gente. A gente se beijar, conversar
e ficar de mãos dadas sem nem saber como somos fisicamente.
— Eu sou muito gato — afirmo.
Ela ri.
— Estou falando sério. Se me visse agora, você ficaria de
joelhos, imploraria para ser minha namorada e ficaria me exibindo
pelo colégio inteiro.
— Muito improvável — diz ela. — Eu não namoro ninguém.
Namorar é uma coisa superestimada.
— Se você não fica de mãos dadas com ninguém nem namora,
o que é que você faz?
Ela suspira.
— Praticamente todo o resto. Tenho a maior fama, sabe. Na
verdade, é possível que a gente já tenha até transado, só não
percebemos isso ainda.
— Impossível. Você se lembraria de mim.
Ela dá outra risada e, por mais que eu esteja me divertindo
com ela, seu riso me dá vontade de arrastá-la até o chão junto
comigo e beijá-la sem parar.
— Você é mesmo um gato? — pergunta ela, ceticamente.
— Muito gato.
— Deixa eu adivinhar. Cabelo escuro, olhos castanhos, abdô-
men superdefinido, dentes brancos, estilo Abercrombie & Fitch.
— Quase — digo. — Cabelo castanho-claro, acertou os
olhos, o abdômen e os dentes, mas prefiro o estilo American
Eagle Outfitters.
— Minha vez. Cabelo louro e volumoso, grandes olhos
azuis, um vestidinho branco e charmoso com um chapéu combinando,
pele azul e meio metro de altura.
Ela ri bem alto.
— Você tem fetiche pela Smurfette?
— Não custa sonhar.
Ela ainda está rindo, e o som da sua risada faz o meu coração
doer. Dói porque o que eu mais quero é saber quem é
essa garota, mas tenho noção de que, depois que eu descobrir,
provavelmente não vou mais querer ficar com ela tanto quanto
quero agora.
Ela inspira depois de parar de rir e o armário fica silencioso.
Tão silencioso que é quase constrangedor.
— Não vou aparecer aqui de novo depois de hoje — confessa,
baixinho.
Aperto a mão dela, surpreso com a tristeza que sinto com
essa confissão.
— Vou me mudar. Não agora, mas em breve. No verão. Só
acho que seria bobagem voltar aqui, pois vamos acabar acendendo
a luz ou então nos distraindo e dizendo nossos nomes e
acho que prefiro não saber quem você é.
Passo o dedão por sua mão.
— Então por que veio aqui hoje?
Ela suspira com delicadeza.
— Queria agradecer você.
Dou uma risada baixinha.
— Pelo quê? Por beijá-la? Foi só isso que eu fiz.
— É — diz ela em tom neutro. — Isso mesmo. Por ter me
beijado. Por só ter me beijado. Sabe há quanto tempo um garoto
não me beija e só? Depois que fui embora na semana passada,
tentei lembrar, mas não consegui. Toda vez que um garoto me
beija, ele sempre está com tanta pressa para chegar no que vem
depois dos beijos que acho que ninguém nunca tinha me dado
um beijo de verdade, sincero.
Balanço a cabeça.
— Isso é muito triste — digo. — Mas não fique pensando
tão bem assim de mim. Sou bastante conhecido por querer passar
logo dessa parte também. Só que semana passada não tive
nenhuma pressa porque você beija bem demais.
— Pois é — responde ela, confiante. — Eu sei. Imagina
como deve ser fazer amor comigo.
Engulo em seco.
— Vá por mim, já imaginei. Estou imaginando isso há sete
dias.
A perna dela para de se balançar ao meu lado. Não sei se a
deixei constrangida com esse comentário.
— Sabe o que mais é triste? — pergunta ela. — Ninguém
nunca fez amor comigo.
Essa conversa está tomando um rumo estranho. Já dá para
perceber.
— Você é nova. Tem muito tempo pra isso. Ser virgem é
algo que dá tesão, então não precisa se preocupar.
Ela ri, mas dessa vez é uma risada triste.
Estranho como eu já consigo distinguir as diferentes risadas
dela.
— Não sou nada virgem — explica ela. — É por isso que
é triste. Tenho muita experiência com sexo, mas quando olho
pra trás... nunca amei nenhum dos garotos. E nenhum deles me
amou. Às vezes me pergunto se fazer sexo com alguém que
amamos é mesmo diferente. Se é melhor.
Penso na pergunta e percebo que não sei responder. Também
nunca amei ninguém.
— Boa pergunta — reconheço. — É meio triste, parece que
nós dois já transamos, várias vezes, pelo jeito, mas não amamos
nenhuma das pessoas com quem fizemos isso. Diz muito sobre
quem somos, não acha?
— Pois é — responde ela, baixinho. — Diz muito mesmo. É
uma triste verdade.
Ficamos em silêncio por um tempo e continuamos de mãos
dadas. Não consigo parar de pensar que ninguém nunca segurou
a mão dela. Fico me perguntando se cheguei a segurar a mão
das garotas com quem transei. Não que tenham sido milhares,
mas foi o suficiente para que eu devesse me lembrar de segurar
a mão de pelo menos uma delas.
— Talvez eu seja um desses garotos — admito, envergonhado.
— Não sei se alguma vez já segurei a mão de uma garota.
— Você está segurando a minha.
Faço que sim com a cabeça lentamente.
— Estou mesmo.
Mais alguns segundos de silêncio se passam antes que ela
volte a falar.
— E se eu sair daqui a quarenta e cinco minutos e nunca
mais segurar a mão de ninguém? E se eu continuar a viver como
estou vivendo agora? E se os garotos continuarem a não me dar
valor e eu não fizer nada para mudar isso e transar várias vezes,
mas sem saber o que é fazer amor?
— É só não fazer isso. Encontre um garoto legal, fique só
com ele e faça amor todas as noites.
Ela solta um gemido.
— Isso me deixa apavorada. Por mais que eu tenha curiosidade
para saber a diferença entre fazer amor e transar... a minha
opinião sobre namoros torna impossível eu descobrir isso.
Fico pensando no comentário dela por um tempinho. É estranho,
pois ela meio que parece uma versão feminina de mim.
Não sei se sou tão contra namoros quanto ela, mas é bem verdade
que nunca disse para uma garota que a amava e espero que
leve bastante tempo até que isso aconteça.
— Não vai mesmo voltar mais aqui? — pergunto.
— Não vou mesmo voltar aqui — confirma ela.
Solto sua mão, me impulsiono com as palmas da mão e salto
do balcão. Mudo de posição, paro na frente dela e ponho as
mãos ao lado de seu corpo.
— Vamos resolver o nosso dilema logo.
Ela inclina-se para trás.
— Que dilema?
Movo as mãos e as coloco nos quadris dela, aproximando-a
de mim.
— Temos quarenta e cinco minutos para resolver isso. Tenho
certeza de que consigo fazer amor com você em quarenta e
cinco minutos. Podemos ver como é e se vale a pena assumir um
namoro no futuro. Assim, quando você sair daqui, não vai mais
precisar se preocupar em não saber como é fazer amor.
Ela ri de nervoso e se inclina na minha direção mais uma vez.
— Como dá para fazer amor com alguém por quem não se
está apaixonado?
Eu me inclino para a frente até minha boca ficar perto do
ouvido dela.
— Nós fingimos.
Escuto-a arfar. Ela vira o rosto um pouco na direção do meu
e sinto seus lábios roçarem na minha bochecha.
— E se nós dois formos péssimos atores? — sussurra ela.
Fecho os olhos, pois quase não consigo assimilar que talvez
eu vá fazer amor com essa garota em questão de minutos.
— Você devia fazer um teste de atuação pra eu avaliar — diz
ela. — Se me convencer, talvez eu aceite essa sua ideia maluca.
— Fechado.
Dou um passo para trás, tiro a camisa e a jogo no chão. Pego
o casaco no balcão e o desdobro, depois o jogo no chão também.
Eu me viro de volta para o balcão e a levanto. Ela se segura em
mim, enterrando a cabeça em meu pescoço.
— Onde está sua camisa? — pergunta ela, passando as mãos
pelo meu ombro.
Eu a deito no chão e me acomodo ao seu lado, aproximando-a
de mim.
— Você está deitada nela — respondo.
— Ah. Que gentil da sua parte.
Levo a mão até a bochecha dela.
— É o que as pessoas fazem quando estão apaixonadas.
Sinto o sorriso dela.
— E nós estamos muito apaixonados?
— Completamente — digo.
— Por quê? Por que me ama tanto?
— Por causa da sua risada — respondo na mesma hora, sem
saber ao certo se estou inventando ou não. — Amo o seu senso
de humor. Também amo a maneira como você coloca o cabelo
para trás da orelha enquanto está lendo. E amo o fato de você
odiar falar ao telefone quase tanto quanto eu. Amo muito os
bilhetinhos que você deixa pra mim, com sua letra linda. E amo
o fato de você gostar tanto do meu cachorro, porque ele adora
você. Também amo tomar banho com você. Nossos banhos são
sempre divertidos.
Deslizo a mão de sua bochecha até a nuca. Aproximo minha
boca e encosto meus lábios nos dela.
— Uau — diz, encostada na minha boca. — Você é muito
convincente.
Sorrio e me afasto.
— Não saia do personagem — brinco. — Agora é sua vez. O
que você ama em mim?
— Amo muito o seu cachorro. Ele é um cachorro maravilhoso.
Também amo quando você abre as portas pra mim,
embora eu devesse preferir abri-las sozinha. Amo o fato de
você não fingir que gosta de filmes antigos em preto e branco
como todo mundo, pois eles me deixam entediada pra cacete.
Também amo quando estou na sua casa e você rouba beijos
toda vez que seus pais se viram para o outro lado. Mas o que
mais gosto é quando pego você no flagra olhando para mim.
Adoro quando você não desvia o olhar e simplesmente continua
me encarando, como se não sentisse vergonha de não conseguir
parar de olhar para mim. É tudo o que quer fazer na vida,
porque acha que sou a coisa mais incrível que você já viu. Amo
o quanto você me ama.
— Você tem toda a razão — sussurro. — Amo ficar olhando
para você.
Beijo sua boca e depois vou beijando sua bochecha e sua
mandíbula. Pressiono os lábios na sua orelha e, apesar de eu
saber que estamos fingindo, minha boca fica seca quando penso
nas palavras que meus lábios estão prestes a dizer. Hesito, quase
desistindo. Só que uma parte ainda maior de mim quer mesmo
dizer. Uma parte enorme de mim gostaria que eu estivesse sendo
sincero, e uma pequena parte acha que eu seria realmente
capaz de dizer isso com sinceridade.
Passo as mãos pelo cabelo dela.
— Eu amo você — sussurro.
Ela inspira fundo. Meu coração está martelando no peito, e
estou em silêncio, esperando a reação dela. Não faço ideia do que
vai acontecer em seguida. Mas, pensando bem, ela também não.
Ela tira as mãos dos meus ombros e as leva lentamente até
meu pescoço. Inclina a cabeça até sua boca encostar no meu
ouvido.
— Amo você mais ainda — sussurra ela.
Sinto o sorriso em seus lábios e me pergunto se nos meus lá-
bios também há um sorriso. Não sei por que de repente comecei
a curtir tanto isso, mas é assim que me sinto.
— Você é tão linda — murmuro, movendo meus lábios para
mais perto da sua boca. — Tão, tão linda. E todos esses caras que
não deram valor a você são os maiores idiotas.
Ela diminui o espaço entre nossas bocas e eu a beijo, mas
dessa vez nosso beijo parece muito mais íntimo. Por um breve
instante, acredito de verdade que amo todas essas coisas nela e
que ela realmente ama todas essas coisas em mim. Estamos nos
beijando, nos tocando e tirando as roupas que ainda restam com
tanta pressa que parece que estamos com tempo contado.
E acho que tecnicamente estamos mesmo.
Tiro a carteira do bolso da calça, pego uma camisinha e depois
volto a me acomodar em cima dela.
— Ainda dá tempo de você mudar de ideia — sussurro, torcendo
para que ela não mude.
— Você também.
Eu rio.
Ela ri.
Em seguida, ficamos quietos e passamos o resto da hora
provando exatamente o quanto nos amamos.
***
Agora estou de joelhos, juntando nossas roupas em silêncio.
Após vestir minha camisa, eu a puxo para cima e a ajudo a vestir
a blusa. Eu me levanto, coloco a calça e a ajudo a se levantar.
Apoio o queixo no topo da cabeça dela e a aproximo de mim,
percebendo que nos encaixamos perfeitamente.
— Eu bem poderia acender a luz antes de você ir embora
— digo. — Não está curiosa para ver o rosto do garoto pelo qual
está tão apaixonada?
Ela ri, balançando a cabeça que está apoiada no meu peito.
— Isso estragaria tudo. — Suas palavras saem abafadas por
causa da minha camisa, então ela afasta a cabeça do meu peito
e inclina o rosto na direção do meu. — Não vamos estragar isso.
Se descobrirmos quem somos, vamos acabar encontrando alguma
coisa de que não gostamos no outro. Talvez muitas coisas.
Agora está tudo perfeito. Podemos guardar essa lembrança perfeita
do momento em que amamos alguém.
Eu dou outro beijo nela, mas não um muito demorado, pois
o sinal toca. Ela não solta minha cintura. Pressiona a cabeça em
meu peito novamente e me aperta com mais força.
— Preciso ir — diz.
Fecho os olhos e balanço a cabeça, concordando.
— Eu sei.
Fico surpreso com o quanto não quero que ela vá, porque
sei que nunca mais vou vê-la de novo. Quase imploro para ela
ficar, mas também sei que ela tem razão. Tudo só parece perfeito
porque estamos fingindo que é perfeito.
Ela começa a se afastar de mim, então levo as mãos até as
bochechas dela uma última vez.
— Amo você, linda. Fique me esperando no final da aula,
está bem? No nosso lugar de sempre.
— Você sabe que vou estar lá — diz ela. — E também amo
você. — Ela fica nas pontas do pé e pressiona os lábios nos meus,
com força, desespero e tristeza.
Ela se afasta e vai até a saída. Assim que começa a abri-la, eu
a alcanço depressa e fecho a porta com uma das mãos. Pressiono
o peito nas suas costas e levo a boca até seu ouvido.
— Queria que isso pudesse ser verdade — sussurro.
Coloco a mão na maçaneta para gira-la, em seguida viro a
cabeça enquanto ela sai.
Suspiro e passo as mãos pelo cabelo. Acho que preciso de
alguns minutos até conseguir sair daqui. Não sei se já quero
esquecer o cheiro dela. Na verdade, fico parado no escuro, me
esforçando o máximo possível para guardar tudo sobre ela na
minha memória, pois sei que esse é o único lugar em que vou
encontrá-la novamente.
Capítulo Um
Um um ano depois
— Meu Deus! — digo, frustrado. — Fique calma. — Ligo o carro
assim que Val entra e bate a porta com raiva, sentando-se no
banco.
Logo em seguida, a quantidade avassaladora de perfume
que ela colocou começa a me sufocar. Abro a janela, mas só
um pouco para que ela não pense que a estou insultando. Ela
sabe o quanto eu não gosto de perfume e que gosto menos ainda
quando as garotas parecem tomar banho com ele, mas pelo
jeito ela não se importa com a minha opinião, pois continua se
encharcando com um litro todas as vezes que saímos.
— Você é tão imaturo, Daniel — murmura ela, virando o visor
para baixo, para depois tirar o batom da bolsa e começar a retocá-lo.
— Estou começando a me perguntar se um dia vai mudar.
Mudar?
O que diabos ela quis dizer com isso?
— Por que eu mudaria? — pergunto, inclinando a cabeça
com curiosidade.
Ela suspira, guarda o batom na bolsa, encosta os lábios um
no outro e se vira para mim.
— Então está mesmo contente com o seu comportamento?
O quê?
Com o meu comportamento? Ela está mesmo falando do
meu comportamento? A garota que eu vi xingar garçonetes por
algo tão bobo como colocar gelo demais no copo está mesmo
comentando sobre o meu comportamento?
Há meses que vínhamos acabando e reatando nosso namoro,
e eu não fazia ideia de que ela estava esperando que eu mudasse.
Esperando que eu me tornasse alguém que não sou.
Pensando bem... sempre reato o namoro com ela na esperança
de que ela mude. Que ela passe a ser gentil, pelo menos.
Na verdade, as pessoas são como elas são e nunca vão mudar
muito. Então por que diabos Val e eu estamos perdendo tempo
com esse namoro desgastante se um não gosta de quem o
outro é?
— Pois é, foi o que achei — diz ela, de um jeito convencido,
presumindo incorretamente que fiquei em silêncio por concordar
que não estou feliz com meu comportamento.
Na verdade, o meu silêncio foi o momento de clareza do
qual estava precisando desde que a conheci.
Ficamos quietos até chegarmos na entrada da garagem da
casa dela. Deixo o carro ligado, indicando que não estou planejando
entrar essa noite.
— Você vai embora? — pergunta ela.
Faço que sim com a cabeça e fico olhando pela janela do
motorista. Não quero olhar para ela, porque, afinal, sou um garoto
e ela é gostosa e sei que se eu olhar para ela o meu momento
de clareza sobre o nosso namoro vai ficar enevoado, e vou
acabar entrando na casa dela e fazendo as pazes na sua cama,
como sempre faço.
— Não é você que devia estar com raiva, Daniel. Você se
comportou de uma maneira ridícula esta noite. E ainda por
cima na frente dos meus pais! Como quer que eles aprovem
nosso namoro se fica agindo assim?
Preciso inspirar lenta e calmamente para não erguer a voz
como ela está fazendo.
— De que jeito estou me comportando, Val? Porque eu estava
apenas sendo eu mesmo no jantar de hoje, assim como sou
eu mesmo durante todos os minutos do dia.
— Exatamente! Existe a hora certa e o lugar certo para seus
apelidos ridículos e brincadeiras imaturas. Sendo que um jantar
com meus pais não é a hora certa nem o lugar certo!
Frustrado, esfrego as mãos no rosto e depois me viro para
olhá-la.
— Eu sou assim — digo, apontando para mim mesmo. — Se
não gosta de quem sou, então temos problemas sérios, Val. Não
vou mudar e, para ser sincero, também não seria justo pedir para
você mudar. Nunca pediria para você fingir ser algo que não é,
e é exatamente isso que você está me pedindo agora. Não vou
mudar, eu nunca vou mudar e adoraria se você desse o fora do
meu carro agora porque a porra do seu perfume está me deixando
enjoado.
Ela estreita os olhos, tira a bolsa do painel e a puxa para si.
— Ah, que legal, Daniel. Falando mal do meu perfume só
para se vingar de mim. É exatamente isso que estou dizendo.
Você é a epítome da imaturidade. — Ela abre a porta do carro
e solta o cinto.
— Bem, pelo menos não estou pedindo para você mudar de
perfume — digo, em tom de deboche.
Ela balança a cabeça.
— Não aguento mais isso — retruca ela, saindo do carro. —
A gente já era, Daniel. E não tem volta dessa vez.
— Graças a Deus — digo, bem alto para que ela me escute.
Ela bate a porta e vai para dentro de casa. Abaixo o vidro
da janela do carona tentando fazer com que o perfume saia do
carro e dou ré.
Cadê aquele maldito do Holder? Se eu não puder reclamar
dela com alguém, vou acabar gritando.
***
Entro pela janela de Sky e ela está sentada no chão, vendo algumas
fotos. Ergue o olhar e sorri enquanto entro no quarto.
— Oi, Daniel — cumprimenta ela.
— Oi, Peitinho de Queijo — digo ao me deitar na cama. —
Cadê aquele seu namorado?
Ela aponta a cabeça na direção da porta do quarto.
— Eles estão na cozinha pegando sorvete. Quer um pouco?
— Não. Estou arrasado demais para comer.
Ela ri.
— Val está tendo um dia ruim?
— Val está tendo uma vida ruim — corrijo. — E hoje finalmente
percebi que não quero fazer parte dela.
Sky ergue a sobrancelha.
— É mesmo? Dessa vez parece sério.
Dou de ombros.
— Terminamos faz uma hora. E quem são eles?
Ela olha para mim, confusa, então esclareço a pergunta:
— Você disse que eles estavam na cozinha pegando sorvete.
Quem são eles?
No instante em que Sky abre a boca para me responder, a
porta do quarto se escancara e Holder aparece com duas tigelas
de sorvete na mão. Uma garota vem atrás dele, segurando sua
própria tigela, com uma colher na boca. Ela tira a colher dos
lábios e chuta a porta do quarto com o pé. Em seguida, se vira
para a cama e para ao me ver.
Ela me parece vagamente familiar, mas não sei de onde a
conheço. O que é estranho, pois ela é bem bonita e sinto como
se eu devesse saber o nome dela ou lembrar onde foi que a vi.
Ela se aproxima da cama e se senta na extremidade oposta,
me observando o tempo todo. Pega um pouco de sorvete com a
colher e a leva até a boca.
Não consigo parar de encarar aquela colher. Acho que amo
aquela colher.
— O que está fazendo aqui? — pergunta Holder.
Com certa tristeza, desvio o olhar da Garota do Sorvete e
observo Holder se sentar no chão ao lado de Sky e pegar algumas
fotos.
— Nós terminamos, Holder — digo, esticando as pernas
para a frente. — De vez. Ela é louca, porra.
— Mas achei que era por isso que você a amava — diz ele,
em tom de deboche.
Reviro os olhos.
— Obrigado pela parte que me toca, Dr. Merdalhão.
Sky tira uma das fotos das mãos de Holder.
— Acho que dessa vez ele está falando sério — diz ela para
Holder. — Val é passado.
Sky tenta parecer triste por mim, mas sei que está aliviada.
Val nunca combinou muito com eles dois. Mas se eu parar pra
pensar, ela também nunca combinou muito comigo.
Holder olha para mim com curiosidade.
— Acabou mesmo? Sério? — Ele parece estranhamente impressionado.
— Sim, acabou mesmo.
— Quem é Val? — pergunta a Garota do Sorvete. — Ou,
melhor ainda, quem é você?
— Ah, foi mal — interrompe Sky. Ela aponta para a Garota
do Sorvete e para mim repetidas vezes. — Six, esse é Daniel, o
melhor amigo de Dean. Daniel, essa é minha melhor amiga, Six.
Nunca vou me acostumar a escutar Sky chamando-o de
Dean, mas essa apresentação serve como desculpa para eu olhar
para aquela colher mais uma vez. Six a tira da boca e a aponta
para mim.
— Prazer em conhecê-lo, Daniel.
Que merda eu posso fazer para roubar essa colher antes de ela
ir embora?
— Por que seu nome me parece familiar? — pergunto para
ela.
— Não sei. Talvez porque seis é um número bem familiar?
Ou é isso ou então você ouviu falar que sou a maior vagaba.
Dou uma risada. Não sei por que faço isso, pois na verdade
o comentário dela não foi engraçado. Foi até um pouco perturbador.
— Não, não é isso — digo, ainda confuso por não saber por
que o nome dela me é tão familiar. Acho que Sky nunca falou
dela para mim antes.
— Foi aquela festa no ano passado — diz Holder, me obrigando
a olhar para ele novamente. Tenho quase certeza de que
reviro os olhos, mas não foi minha intenção. É que prefiro mil
vezes ficar olhando para ela do que para Holder. — Lembra?
Foi na semana que voltei de Austin, alguns dias antes de conhecer
Sky. Você se lembra da noite em que Grayson o encheu
de porrada porque você disse que tinha tirado a virgindade de
Sky?
— Ah, tá falando da noite em que você me tirou de cima
desse garoto antes que eu pudesse quebrar a cara dele? — Ainda
fico irritado só de pensar nisso. Eu teria mesmo acabado com ele
se Holder não tivesse me impedido.
— Isso — confirma Holder. — Naquela noite Jaxon falou
alguma coisa sobre Sky e Six, mas na época eu não sabia quem
elas eram. Acho que foi nessa hora que você ouviu o nome
dela.
— Pera aí, pera aí, pera aí — diz Sky, balançando as mãos
e olhando para mim como se eu fosse maluco. — Como assim
Grayson o encheu de porrada porque você disse que tinha tirado
minha virgindade? Que porra é essa, Daniel?
Holder põe a mão nas costas de Sky para tranquilizá-la.
— Está tudo bem, linda. Ele disse isso só para irritar Grayson,
porque eu estava quase dando uma surra nele pela maneira
como ele estava falando de você.
Sky balança a cabeça, ainda confusa.
— Mas você nem me conhecia. Você disse que isso foi alguns
dias antes de me conhecer, então por que ficou com raiva
por Grayson estar falando mal de mim?
Também fico encarando Holder, esperando uma resposta.
Naquele momento não pensei nisso, mas é mesmo estranho ele
ter ficado puto com os comentários de Grayson se nem conhecia
Sky ainda.
— Não gostei do modo como ele falava de você — justifica
Holder, aproximando-se para dar um beijo na cabeça de Sky.
— Fiquei pensando que ele devia fazer os mesmos comentários
sobre Les e isso me deixou furioso.
Merda. Claro que ele pensaria isso. Agora queria mesmo
que ele tivesse me deixado encher Grayson de porrada naquela
noite.
— Que meigo, Holder — comenta Six. — Você a estava
protegendo antes mesmo de conhecê-la.
Holder ri.
— Ih, você não sabe nem metade da história, Six.
Sky ergue o olhar, e os dois sorriem um para o outro, quase
como se estivessem escondendo alguma espécie de segredo. Em
seguida, voltam a prestar atenção nas fotos no chão.
— O que são essas fotos? — pergunto.
— São para o livro do ano — diz Six, respondendo à pergunta.
Ela deixa a tigela de sorvete de lado, coloca os pés em
cima da cama e senta-se com as pernas cruzadas. — Pelo visto,
precisamos mandar fotos de quando éramos pequenos para entrar
na página do último ano, então Sky está vendo as fotos que
Karen deu para ela.
— Você estuda no mesmo colégio que a gente? — pergunto,
me referindo ao fato de ela ter se incluído na explicação.
Sei que estudamos num colégio imenso, mas tenho a impressão
de que me lembraria dela, especialmente se é a melhor
amiga de Sky.
— Não estudei no ano passado. Mas vou voltar na segunda
— responde ela, como se não estivesse nem um pouco animada
com isso.
Mas não consigo evitar um sorriso com a resposta dela. Vê-
-la com mais frequência não me incomodaria em nada.
— Então isso significa que vai se juntar à nossa aliança do
almoço? — Eu me inclino para a frente, pego a tigela de sorvete
que ela não acabou de tomar e tomo um pouco.
Ela fica me observando fechar os lábios ao redor da colher
e tirá-la de dentro da boca. Torce o nariz, encarando a colher.
— Eu podia muito bem ter herpes, sabia?
Sorrio para ela e dou uma piscadela.
— Você conseguiu fazer até herpes parecer algo bom.
Ela ri, mas de repente Holder agarra a tigela das minhas
mãos e me puxa para longe da cama. Meus pés encostam no
chão e ele me empurra na direção da janela.
— Vá para casa, Daniel. — Ele solta minha camisa enquanto
se abaixa para se sentar ao lado de Sky.
— O que foi, porra? — grito.
Sério mesmo. O que foi, porra?
— Ela é a melhor amiga de Sky — diz ele, apontando na
direção de Six. — Você não pode dar em cima dela. Se por acaso
não der certo, vai ficar uma situação constrangedora e não quero
nada disso. Agora vá embora e só volte quando puder ficar perto
dela sem ter nenhum desses pensamentos pervertidos que sei
que estão passando pela sua cabeça agora.
Pela primeira vez na vida, não sei o que dizer. Talvez eu
devesse fazer que sim com a cabeça e concordar com ele, mas o
imbecil acabou de cometer o maior erro de todos.
— Porra, Holder — digo, gemendo, passando as palmas das
mãos pelo rosto. — Por que fez essa merda? Agora você me proibiu
de ficar com ela, cara. — Começo a sair pela janela. Depois
de passar para o lado de fora, enfio a cabeça dentro do quarto
e olho para ele. — Você devia ter dito que era para eu sair com
ela, assim é bem provável que eu não fosse me interessar. Mas
você resolveu mesmo me proibir de ficar com a garota, não é?
— Nossa, Daniel — diz Six, sem entusiasmo algum. — Bom
saber que você me considera um ser humano e não um desafio.
— Ela olha para Holder ao se levantar da cama. — E não sabia
que eu tinha um quinto irmão superprotetor — comenta ela,
indo para a janela. — Vejo vocês mais tarde. E de todo jeito é
melhor eu dar uma olhada nas minhas fotos até segunda.
Holder olha para mim enquanto me afasto para deixar Six
sair pela janela. Ele não diz nada, mas o olhar que lança na minha
direção é uma advertência para que eu fique completamente
longe dela. Levanto as mãos na defensiva e fecho a janela
depois que Six sai. Ela anda alguns metros até a casa vizinha e
começa a entrar pela janela.
— Você sempre usa janelas como atalho ou por acaso mora
aí? — pergunto, seguindo na sua direção.
Depois de entrar, ela se vira e põe a cabeça para fora.
— Essa é a minha janela — afirma ela. — E nem pense em
tentar entrar aqui. Essa janela está fechada para balanço há quase
um ano e não tenho intenção alguma de reabri-la.
Ela põe o cabelo louro na altura do ombro atrás das orelhas
e dou um passo para trás, esperando que um pouco de distância
seja capaz de fazer meu coração parar de esmurrar meu peito.
No entanto, agora que Holder fez a idiotice de me proibir de
ficar com ela, tudo que quero é descobrir uma maneira de reabrir
essa janela.
— Você tem mesmo quatro irmãos mais velhos?
Ela faz que sim com a cabeça. Odeio que ela tenha quatro
irmãos mais velhos, mas só porque são quatro razões a mais
para eu não ficar com essa garota. Juntando isso à proibição de
Holder, agora não vou mais conseguir tirá-la da cabeça.
Valeu, Holder. Valeu mesmo.
Ela apoia o queixo nas mãos e fica me encarando. Está escuro
do lado de fora, mas o luar está iluminando bem o rosto
dela, fazendo-a parecer uma porra de um anjo. Não sei nem se
posso usar as palavras porra e anjo na mesma frase, mas merda.
Ela parece mesmo a porra de um anjo com esse cabelo louro e
olhos grandes. Não sei nem de que cor são seus olhos porque
está escuro e não prestei atenção quando estávamos no quarto
de Sky. Mas a cor deles, qualquer que seja, acabou de virar minha
cor preferida.
— Você é muito carismático — diz ela.
Meu Deus. A voz dela acaba de vez comigo.
— Valeu. Você também é bem bonitinha.
Ela ri.
— Não disse que você é bonitinho, Daniel. Eu disse que
você é carismático. São coisas diferentes.
— Nem tanto. Gosta de italiano?
Ela franze a testa e recua alguns centímetros como se eu a
tivesse insultado.
— Por que está me perguntando isso?
A reação dela me deixa confuso. Não faço ideia de como
meu comentário pode ter sido ofensivo.
— Hum... ninguém nunca convidou você para sair?
Sua testa volta ao normal e ela se inclina para a frente de
novo.
— Ah. Você quer dizer comida italiana. Na verdade estou
meio enjoada de comida italiana. Acabei de voltar de um intercâmbio
de sete meses na Itália. Se está me convidando para sair,
prefiro sushi.
— Nunca comi sushi — admito, tentando assimilar o fato
de que tenho certeza de que ela acabou de concordar em sair
comigo.
— Quando?
Isso foi fácil demais. Esperava que ela fosse dar uma de difí-
cil e me fazer implorar como Val sempre faz. Amo o fato de ela
não estar fazendo joguinhos. É direta e já estou gostando disso.
— Hoje não dá — digo. — Meu coração foi completamente
partido uma hora atrás por uma vaca psicótica e preciso de um
tempinho para me recuperar. Que tal amanhã à noite?
— Amanhã é domingo.
— Você tem algum problema com domingo?
Ela ri.
— Não, acho que não. Só me parece estranho marcar um
primeiro encontro num domingo. Mas me pegue aqui às 19 horas,
então.
— Encontro você na porta da frente — digo. — E é melhor
não contar pra Sky aonde vai, a não ser que queira me ver levando
uma surra.
— Contar o quê? — pergunta ela, sarcasticamente. — Até
parece que vamos sair juntos numa noite aleatória de domingo
ou coisa parecida.
Sorrio e me afasto, voltando devagar para o meu carro.
— Foi um prazer conhecê-la, Six.
Ela põe a mão na janela para fechá-la.
— Você também. Eu acho.
Dou uma risada e me viro na direção do meu carro. Estou
quase alcançando a porta quando a escuto chamar meu nome.
Eu me viro e vejo que ela está com a cabeça para fora da janela.
— Sinto muito pelo seu coração partido — sussurra ela,
bem alto. Depois volta para dentro do quarto e a janela se fecha.
Que coração partido? Tenho certeza de que é a primeira vez
que meu coração sentiu algum alívio desde o instante em que
comecei a sair com Val.


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